Duas. Elas são duas.
Uma é morena e tem o coração apertado de dúvidas, muitas dúvidas. A outra meio branquinha e de óculos, tem o coração aberto, até mesmo meio frouxo- deixa entrar poeira, caco de vidro, gente torta, e todas as novidades que encontra pelo caminho.
A morena escolhe a dedo, a branquinha aceita tudo.
Uma vez elas se olharam, uma comprava leite e ovo, a outra café e jornal. Depois daquela vez elas se olham todos os dias.
Uma dorme do lado esquerdo da cama, a outra às vezes no sofá, às vezes na varanda, às vezes não dorme.
A morena diz que a vida é feita de ilusões. Que nada é realmente como se vê, que o que se vê depende de muitos fatores, e que os fatores que influem na forma de se ver o mundo realmente são muitos e tem peles diferentes.
Já a branquinha acha a vida boa, cruel sim, mas muito boa. Não se importa muito com que ela mesma pensa da vida- diz que o importante é viver. E passa suas tardes a registrar os olhares que tem sobre as coisas do mundo. Registra em palavras e imagens fotográficas.
Nisso elas combinam. As duas têm no registro fotográfico um salário no final do mês.
É importante fotografar a vida. Registrar o momento. Depois isso paga o leite, o ovo, o jornal e o café. Não paga muito mais.
As duas se gostam em demasia. A morena adora os peitos pequenos da branquinha. A branquinha se perde nos peitos fartos da morena. Nunca viu peitos tão lindos!
E assim elas vão indo, escutando Sarka do compositor checa Bedrich Smetana, escutando também Dani Black, Madredeus, e alguma coisa de Arnaldo Antunes. As duas gostam da rua. Podem passar horas, muitos dias, como transeuntes sem destinação, ou então como observadoras ferrenhas da vida que se desenrola pela rua.
Algumas manhãs de sábado acordam cedo e se amam. Nada como a luz do dia pra se festejar um amor, ou um benzinho.
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