Seu nariz fino, educado, logo percebeu o cheiro da Babosa- havia um morto por ali. Seu nariz foi educado, já na época da chupeta, a perceber os diferentes cheiros das situações que ocorrem durante a vida. Parece que a menina já tinha nascido sob os cuidados de uma aguçada sensibilidade olfativa.
Cada situação tem um cheiro específico. Lembranças, essas também tem cheiros. Esse dom olfativo, ajudava-a a saber se era amor no ar, se era morte que rondava o dia, se faria sol ou chuva. Pelo exímio uso que fazia de seu olfato, ela podia se adaptar melhor ao ambiente e conseguia agir com mais eficiência. Para a maioria das espécies animais (ela estava incluida nesse comboio), o olfato é uma questão de vida ou morte.
Dizem que é na parte mais antiga do cérebro, o rinencéfalo (cujo nome é composto por duas palavras significando- cheiro e cérebro), que está compreendida a área olfativa, e parece que o própio rinencéfalo teria se desenvolvido inicialmente a partir de estruturas olfativas. Isto indica que provavelmente a capacidade para experimentar e expressar emoções se terá desenvolvido da habilidade de processar os odores. O olfato é o mais primitivo dos sentidos.
Poucos percebem que, num mundo onde quase tudo tem odor, é esse sentido que decifra as mensagens químicas das quais freqüentemente depende a própria sobrevivência.
A função do olfato foi perdendo importância no decorrer da evolução das espécies. Os primeiros seres, que viviam nas profundezas dos oceanos, certamente só possuíam esse sentido, com o qual localizavam a comida, descobriam os parentes e evitavam os inimigos. O cérebro tinha apenas centros olfativos, que interpretavam os odores, e centros motores, que controlavam os movimentos. Quanto mais as espécies foram evoluindo, mais ia diminuindo o tamanho da área cerebral especializada no olfato,o rinencéfalo, que cedeu espaço para outras estruturas especializadas.
Como no caso das emoções básicas, a resposta imediata aos odores transmite uma mensagem simples: ou se gosta ou não se gosta; fazem-nos aproximar ou evitar.
E verifica-se ainda que, quando uma pessoa sofre um trauma que a faz perder o olfato, o impacto se torna por vezes devastador: as experiências de comer ou fazer amor ou mesmo passear numa manhã primaveril ficam extremamente diminuídas.
Dizem que quando um romance está perto do fim, a parte desinteressada no parceiro já não aguenta o cheiro do outro.
E no mais, tem um morto por ali. Ela sentia o cheiro dele.
Thursday, 30 September 2010
Friday, 24 September 2010
num fôlego só
era uma dança andança dois passos pra lá um pra cá passo pra trás aqui me traz passo atrás de passo pé após outro pé andança era dança sem pé nem cabeça e o coração então rodopiava sem pousar nunca a nuca querendo lingua a lingua lambendo tudo amargo do café gostoso de todos os dias era muito passo pra dar a perna não se aguentava tenta acompanhar era longo o caminho o caminho era muita escolha cega escolhia sem saber não sabia de nada nem sabia a vida é brisa é tiroteio a vida é bala doce na boca a vida é bala estilhaço no peito
Saturday, 28 August 2010
Wednesday, 18 August 2010
Monday, 2 August 2010
descuido
ponteiro que nao marca hora
peito que nao ama
boca sem fala, chora
hora que nao passa
ama o peito agora
choro sem fala, boca cala
passa o ponteiro pelas horas
num momento de descuido, passou um segundo
peito na boca, boca fala
peito que nao ama
boca sem fala, chora
hora que nao passa
ama o peito agora
choro sem fala, boca cala
passa o ponteiro pelas horas
num momento de descuido, passou um segundo
peito na boca, boca fala
Sunday, 25 July 2010
linha de partida
agora que eu fui, não volto mais
me volto pra outro lugar
com o remo alinhado vou costurando um horizonte qualquer
que não esse
agora que fui, não volto mais
vou envolto de ir, como novelo de lã
fio após fio
dia após dia
vou pra mais longe daqui
já parti?
me volto pra outro lugar
com o remo alinhado vou costurando um horizonte qualquer
que não esse
agora que fui, não volto mais
vou envolto de ir, como novelo de lã
fio após fio
dia após dia
vou pra mais longe daqui
já parti?
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horizonte,
linha de partida,
partitura do adeus,
pro dri
Friday, 16 July 2010
dentes
As engrenagens operam aos pares, os dentes de uma encaixando nos dentes de outra.
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dente,
engrenagem,
eu-engrenagem,
meu par
Tuesday, 6 July 2010
falta e excesso
Ela tinha uns dentes enormes, não cabiam na sua boca (sempre escancarada, tentando engolir a vida). Era o tempo todo ela na vida e a vida nela. Um não-território, sem fronteiras, ficava quase impossível respirar. Era muita matéria e não-matéria, era o tempo todo o universo todo dentro e fora e dentro. E assim, ela-cadeira, ela-filho, ela-célula, ela-céu, ela-seio, ela-geladeira, ela-o outro, ela-potíticas socias, ela-corrupção, ela-infinito, ela-fim, ela-buraco negro, ela-ela, era ela e tudo ao mesmo tempo. Sem fim e sem começo, ela ficava do tamanho do mundo, e sumia engolida pela parte que desconhecemos de tudo.
Thursday, 27 May 2010
o foco
penso na reta, na seta,
no alvo, no tiro certeiro
penso em caber no momento
sempre passageiro
sou o exageiro
nao caibo dentro de mim
entao eu me espalho
me leva o vento até um pensamento
faço voltas nas letras, trago palavras feitas
no alvo, no tiro certeiro
penso em caber no momento
sempre passageiro
sou o exageiro
nao caibo dentro de mim
entao eu me espalho
me leva o vento até um pensamento
faço voltas nas letras, trago palavras feitas
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a falta que faz,
a palavra,
desfocada,
multifocal,
o foco
Wednesday, 5 May 2010
acorde menor
sou um poetinha menor, um zé de idéias, ponta sem nó
desenrolo uma estória, pinto falésias e tenho receio de morrer só
sou um poetinha, encanador de palavras- rio deitado fora do leito
lavrador das riminhas- nelas cabem muitos mundos, muitos zés de muitos feitos
sou um poetinha menor, aparafusador de letras
uma letra agarrada na outra traz sentido em si
eu agarrado nas letras, faz sentido em mim
um poetinha que vê nas frases o mundo que dança lá fora
é preciso olhar e se perder naquilo que se vê
como sou um poetinha menor, caibo
caibo sempre em qualquer palavra
palelatravra lepatralavra
desenrolo uma estória, pinto falésias e tenho receio de morrer só
sou um poetinha, encanador de palavras- rio deitado fora do leito
lavrador das riminhas- nelas cabem muitos mundos, muitos zés de muitos feitos
sou um poetinha menor, aparafusador de letras
uma letra agarrada na outra traz sentido em si
eu agarrado nas letras, faz sentido em mim
um poetinha que vê nas frases o mundo que dança lá fora
é preciso olhar e se perder naquilo que se vê
como sou um poetinha menor, caibo
caibo sempre em qualquer palavra
palelatravra lepatralavra
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sopa de letrinhas,
zé
Sunday, 2 May 2010
um, um, dois, um
maria gostava de amar
amava sem se preocupar
geraldo virou comandante
da décima quinta vila militar
de santa cruz dos montes
enquanto maria chorava
geraldo rangia os dentes
da sua metralhadora
maria engolia lorotas
geraldo polia suas botas
pao quente, manteiga derretida
a vida passa e a gente nem sente
amava sem se preocupar
geraldo virou comandante
da décima quinta vila militar
de santa cruz dos montes
enquanto maria chorava
geraldo rangia os dentes
da sua metralhadora
maria engolia lorotas
geraldo polia suas botas
pao quente, manteiga derretida
a vida passa e a gente nem sente
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geraldo e maria,
metralhadora,
um
Tuesday, 27 April 2010
a menina e o ali-ali
Marina saía de casa todos os dias pra passear lá na esquina.
Ela saía ainda com os cabelos molhados do banho. Nossa, era muito bom andar pela esquina com os cabelos molhados e um ventinho batendo. Ela descia pra rua de elevador por que ela morava num edifício. Várias janelinhas que abrigam vidinhas dentro. Várias janelinhas e portas para a gente poder entrar e sair. Afinal, ainda se pode ir passear ali na esquina. Só que marina era a única que ia dar uma volta logo ali. Era a única.
- Uma voltinha logo ali! Como assim minha filha? Ninguém pode ficar 'a toa.
Então pelas portas as pessoas só saiam para ir pra algum lugar. Não se engane que a esquina ali do lado não é lugar algum. Algum lugar consideravam ser o seu local de trabalho, a casa da mãe, o supermercado. Até pra ir passear era preciso saber onde se ia. Mas marina ignorava os olhos tortos que a olhavam com desprezo todos os dias quando ela saía de banho tomado e a pele limpa pra dar uma volta ali-ali. As janelas não serviam pra quase nada. Todas ficavam quase sempre o tempo todo fechadas. Algumas tinham grades. Outras sempre de cortinas cerradas. Assim como ninguém era como marina que todo dia ia passear na esquina, ninguém parava para olhar pela janela. De vez em quando alguém tentava escapar pela janela num ato desesperado e sem muito entendimento- nossa, pulavam!
Ela saía ainda com os cabelos molhados do banho. Nossa, era muito bom andar pela esquina com os cabelos molhados e um ventinho batendo. Ela descia pra rua de elevador por que ela morava num edifício. Várias janelinhas que abrigam vidinhas dentro. Várias janelinhas e portas para a gente poder entrar e sair. Afinal, ainda se pode ir passear ali na esquina. Só que marina era a única que ia dar uma volta logo ali. Era a única.
- Uma voltinha logo ali! Como assim minha filha? Ninguém pode ficar 'a toa.
Então pelas portas as pessoas só saiam para ir pra algum lugar. Não se engane que a esquina ali do lado não é lugar algum. Algum lugar consideravam ser o seu local de trabalho, a casa da mãe, o supermercado. Até pra ir passear era preciso saber onde se ia. Mas marina ignorava os olhos tortos que a olhavam com desprezo todos os dias quando ela saía de banho tomado e a pele limpa pra dar uma volta ali-ali. As janelas não serviam pra quase nada. Todas ficavam quase sempre o tempo todo fechadas. Algumas tinham grades. Outras sempre de cortinas cerradas. Assim como ninguém era como marina que todo dia ia passear na esquina, ninguém parava para olhar pela janela. De vez em quando alguém tentava escapar pela janela num ato desesperado e sem muito entendimento- nossa, pulavam!
Thursday, 1 April 2010
do outro lado
quando cruzei a rua
cruzei a rua
cruzei a rua
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chegada,
do outro lado da margem,
o outro lado,
partida,
rua
Thursday, 25 March 2010
cafona assim
na sua boca mora o beijo o tamanho do meu desejo de amar no seu braço mora o abraço a vontade tamanha de me encontrar na sua mao meu segredo moreno de olhos d´agua vem pra mim vem conhecer o que eu tenho pra te dar minha vida
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amor de folhetim,
cafona sim,
canção de amor,
vontade boba
Tuesday, 2 March 2010
quintal de casa
lá no quintal de casa tem tirar fruta do pé e vem a vizinha gritar
seu zé, minha galinha sumiu
manga tem de montao e mais pitanga e cajá
se faz geléia e um café
rapaz desça já daí
me traz a chinela e o boné
vou lá, é chao que nao acaba mais
vou lá, é chao que nao tem fim
na minha direçao lá vem geraldo e seu caminhao
e o pó
já na praça avistei gessi dos lábios carmim
e o peito entao
coça de tanto amar
um saco de feijao, joaquim
e duas duzias de ovos frescos
um pedaço da lingua e dos bagos
que hoje tem festa de noivado
renda, alfinete, cetim e um brocado
branca, amarela, azul, flores no vaso
que hoje é dia de batizado
seu zé, minha galinha sumiu
manga tem de montao e mais pitanga e cajá
se faz geléia e um café
rapaz desça já daí
me traz a chinela e o boné
vou lá, é chao que nao acaba mais
vou lá, é chao que nao tem fim
na minha direçao lá vem geraldo e seu caminhao
e o pó
já na praça avistei gessi dos lábios carmim
e o peito entao
coça de tanto amar
um saco de feijao, joaquim
e duas duzias de ovos frescos
um pedaço da lingua e dos bagos
que hoje tem festa de noivado
renda, alfinete, cetim e um brocado
branca, amarela, azul, flores no vaso
que hoje é dia de batizado
Wednesday, 6 January 2010
tomar prumo
vou ver navio passar
vou tentar me aprumar
vou pegar vento do norte
vou encarar a morte
pra entender da vida
basta um pouco de sorte
pra ver estrela passar
ver folha balançar
vou ver sentido de vida
no bico de passáro que passa rasgando céu
quero encontrar meu rosto
no fundo do pote de mel
vou pegar carona nos seus braços
pra abraçar o mundo
a gente precisa do outro junto
vou tentar me aprumar
vou pegar vento do norte
vou encarar a morte
pra entender da vida
basta um pouco de sorte
pra ver estrela passar
ver folha balançar
vou ver sentido de vida
no bico de passáro que passa rasgando céu
quero encontrar meu rosto
no fundo do pote de mel
vou pegar carona nos seus braços
pra abraçar o mundo
a gente precisa do outro junto
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mel,
o outro,
o outro junto da gente,
ver navio passar
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