Saturday, 17 December 2011

exercício de me tornar pessoa

não sou nada
nunca serei nada
não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo


eu queria abrir um janela, uma janela ou abrir o chão
digo
abrir uma janela no chão que eu piso
aí, numa queda vagorosa
ir cantando bem baixinho em verso, poesia e prosa
tudo que fosse conhecendo
tudo que eu fosse descobrindo

como sou eu como pessoa?

Saturday, 29 October 2011

Thursday, 15 September 2011

amor de fotografia

nem preto, nem branco
o amor acontece nas variações

Thursday, 1 September 2011

de carona com bandeira

seu corpo é tudo o que cheira, rosa, flor de laranjeira
seu corpo é mosteiro, é praia, sol quente debaixo da minha saia
medito no movimento do seu quadril, seu corpo é céu de cor azul anil
seu corpo é vôo e pouso
seu corpo é asa

Tuesday, 7 June 2011

não cabe na música

vou ver navio passar
vou tentar me aprumar
vou pegar vento do norte
vou encarar a morte
pra entender da vida
basta um pouco de sorte
e atrás dela eu vou

sempre que o céu nos meus ombros encosta
e me lembra dos dias que estão por vir

penso na reta e na seta
no alvo, no tiro certeiro
penso em caber no momento
que é sempre passageiro
sou o exageiro
nao caibo dentro de mim
entao eu me espalho

me leva o vento até um pensamento
faço voltas na letras, trago palavras feitas

vou ver estrela passar
riscando o tempo no céu
e se o tempo me permitir
entender que eu sou
rio fora do leito
encanador de palavras
zé de poucos feitos

sou poetinha menor
sou um zé de ideias e letras
sou ponta sem nó

Thursday, 30 September 2010

odor, ó dor!

Seu nariz fino, educado, logo percebeu o cheiro da Babosa- havia um morto por ali. Seu nariz foi educado, já na época da chupeta, a perceber os diferentes cheiros das situações que ocorrem durante a vida. Parece que a menina já tinha nascido sob os cuidados de uma aguçada sensibilidade olfativa.
Cada situação tem um cheiro específico. Lembranças, essas também tem cheiros. Esse dom olfativo, ajudava-a a saber se era amor no ar, se era morte que rondava o dia, se faria sol ou chuva. Pelo exímio uso que fazia de seu olfato, ela podia se adaptar melhor ao ambiente e conseguia agir com mais eficiência. Para a maioria das espécies animais (ela estava incluida nesse comboio), o olfato é uma questão de vida ou morte.
Dizem que é na parte mais antiga do cérebro, o rinencéfalo (cujo nome é composto por duas palavras significando- cheiro e cérebro), que está compreendida a área olfativa, e parece que o própio rinencéfalo teria se desenvolvido inicialmente a partir de estruturas olfativas. Isto indica que provavelmente a capacidade para experimentar e expressar emoções se terá desenvolvido da habilidade de processar os odores. O olfato é o mais primitivo dos sentidos.
Poucos percebem que, num mundo onde quase tudo tem odor, é esse sentido que decifra as mensagens químicas das quais freqüentemente depende a própria sobrevivência.
A função do olfato foi perdendo importância no decorrer da evolução das espécies. Os primeiros seres, que viviam nas profundezas dos oceanos, certamente só possuíam esse sentido, com o qual localizavam a comida, descobriam os parentes e evitavam os inimigos. O cérebro tinha apenas centros olfativos, que interpretavam os odores, e centros motores, que controlavam os movimentos. Quanto mais as espécies foram evoluindo, mais ia diminuindo o tamanho da área cerebral especializada no olfato,o rinencéfalo, que cedeu espaço para outras estruturas especializadas.
Como no caso das emoções básicas, a resposta imediata aos odores transmite uma mensagem simples: ou se gosta ou não se gosta; fazem-nos aproximar ou evitar.
E verifica-se ainda que, quando uma pessoa sofre um trauma que a faz perder o olfato, o impacto se torna por vezes devastador: as experiências de comer ou fazer amor ou mesmo passear numa manhã primaveril ficam extremamente diminuídas.
Dizem que quando um romance está perto do fim, a parte desinteressada no parceiro já não aguenta o cheiro do outro.
E no mais, tem um morto por ali. Ela sentia o cheiro dele.

Friday, 24 September 2010

num fôlego só

era uma dança andança dois passos pra lá um pra cá passo pra trás aqui me traz passo atrás de passo pé após outro pé andança era dança sem pé nem cabeça e o coração então rodopiava sem pousar nunca a nuca querendo lingua a lingua lambendo tudo amargo do café gostoso de todos os dias era muito passo pra dar a perna não se aguentava tenta acompanhar era longo o caminho o caminho era muita escolha cega escolhia sem saber não sabia de nada nem sabia a vida é brisa é tiroteio a vida é bala doce na boca a vida é bala estilhaço no peito

Saturday, 28 August 2010

Wednesday, 18 August 2010

Monday, 2 August 2010

descuido

ponteiro que nao marca hora
peito que nao ama
boca sem fala, chora
hora que nao passa
ama o peito agora
choro sem fala, boca cala
passa o ponteiro pelas horas
num momento de descuido, passou um segundo
peito na boca, boca fala

Sunday, 25 July 2010

linha de partida

agora que eu fui, não volto mais
me volto pra outro lugar
com o remo alinhado vou costurando um horizonte qualquer
que não esse
agora que fui, não volto mais
vou envolto de ir, como novelo de lã
fio após fio
dia após dia
vou pra mais longe daqui
já parti?

Friday, 16 July 2010

dentes

As engrenagens operam aos pares, os dentes de uma encaixando nos dentes de outra.

engrenagem

Tuesday, 6 July 2010

falta e excesso

Ela tinha uns dentes enormes, não cabiam na sua boca (sempre escancarada, tentando engolir a vida). Era o tempo todo ela na vida e a vida nela. Um não-território, sem fronteiras, ficava quase impossível respirar. Era muita matéria e não-matéria, era o tempo todo o universo todo dentro e fora e dentro. E assim, ela-cadeira, ela-filho, ela-célula, ela-céu, ela-seio, ela-geladeira, ela-o outro, ela-potíticas socias, ela-corrupção, ela-infinito, ela-fim, ela-buraco negro, ela-ela, era ela e tudo ao mesmo tempo. Sem fim e sem começo, ela ficava do tamanho do mundo, e sumia engolida pela parte que desconhecemos de tudo.

Thursday, 27 May 2010

o foco

penso na reta, na seta,
no alvo, no tiro certeiro
penso em caber no momento
sempre passageiro
sou o exageiro
nao caibo dentro de mim
entao eu me espalho
me leva o vento até um pensamento
faço voltas nas letras, trago palavras feitas

Wednesday, 5 May 2010

acorde menor

sou um poetinha menor, um zé de idéias, ponta sem nó
desenrolo uma estória, pinto falésias e tenho receio de morrer só
sou um poetinha, encanador de palavras- rio deitado fora do leito
lavrador das riminhas- nelas cabem muitos mundos, muitos zés de muitos feitos
sou um poetinha menor, aparafusador de letras
uma letra agarrada na outra traz sentido em si
eu agarrado nas letras, faz sentido em mim
um poetinha que vê nas frases o mundo que dança lá fora
é preciso olhar e se perder naquilo que se vê
como sou um poetinha menor, caibo
caibo sempre em qualquer palavra
palelatravra lepatralavra

Sunday, 2 May 2010

um, um, dois, um

maria gostava de amar
amava sem se preocupar
geraldo virou comandante
da décima quinta vila militar
de santa cruz dos montes
enquanto maria chorava
geraldo rangia os dentes
da sua metralhadora
maria engolia lorotas
geraldo polia suas botas
pao quente, manteiga derretida
a vida passa e a gente nem sente

Tuesday, 27 April 2010

a menina e o ali-ali

Marina saía de casa todos os dias pra passear lá na esquina.
Ela saía ainda com os cabelos molhados do banho. Nossa, era muito bom andar pela esquina com os cabelos molhados e um ventinho batendo. Ela descia pra rua de elevador por que ela morava num edifício. Várias janelinhas que abrigam vidinhas dentro. Várias janelinhas e portas para a gente poder entrar e sair. Afinal, ainda se pode ir passear ali na esquina. Só que marina era a única que ia dar uma volta logo ali. Era a única.
- Uma voltinha logo ali! Como assim minha filha? Ninguém pode ficar 'a toa.
Então pelas portas as pessoas só saiam para ir pra algum lugar. Não se engane que a esquina ali do lado não é lugar algum. Algum lugar consideravam ser o seu local de trabalho, a casa da mãe, o supermercado. Até pra ir passear era preciso saber onde se ia. Mas marina ignorava os olhos tortos que a olhavam com desprezo todos os dias quando ela saía de banho tomado e a pele limpa pra dar uma volta ali-ali. As janelas não serviam pra quase nada. Todas ficavam quase sempre o tempo todo fechadas. Algumas tinham grades. Outras sempre de cortinas cerradas. Assim como ninguém era como marina que todo dia ia passear na esquina, ninguém parava para olhar pela janela. De vez em quando alguém tentava escapar pela janela num ato desesperado e sem muito entendimento- nossa, pulavam!

Thursday, 1 April 2010

Thursday, 25 March 2010

cafona assim

na sua boca mora o beijo o tamanho do meu desejo de amar no seu braço mora o abraço a vontade tamanha de me encontrar na sua mao meu segredo moreno de olhos d´agua vem pra mim vem conhecer o que eu tenho pra te dar minha vida

Tuesday, 2 March 2010

quintal de casa

lá no quintal de casa tem tirar fruta do pé e vem a vizinha gritar
seu zé, minha galinha sumiu
manga tem de montao e mais pitanga e cajá
se faz geléia e um café
rapaz desça já daí
me traz a chinela e o boné
vou lá, é chao que nao acaba mais
vou lá, é chao que nao tem fim
na minha direçao lá vem geraldo e seu caminhao
e o pó
já na praça avistei gessi dos lábios carmim
e o peito entao
coça de tanto amar
um saco de feijao, joaquim
e duas duzias de ovos frescos
um pedaço da lingua e dos bagos
que hoje tem festa de noivado
renda, alfinete, cetim e um brocado
branca, amarela, azul, flores no vaso
que hoje é dia de batizado

Wednesday, 6 January 2010

tomar prumo

vou ver navio passar
vou tentar me aprumar
vou pegar vento do norte
vou encarar a morte
pra entender da vida
basta um pouco de sorte
pra ver estrela passar
ver folha balançar
vou ver sentido de vida
no bico de passáro que passa rasgando céu
quero encontrar meu rosto
no fundo do pote de mel
vou pegar carona nos seus braços
pra abraçar o mundo
a gente precisa do outro junto

Tuesday, 15 December 2009

musicando a idéia do meu primeiro haicai

Dentro do meu peito
trago essa flecha veloz
nela, minha voz
Canto pra entender as urgencias do mundo
pra trazer cá pro fundo um pouco de luz
Canto pra entrender que a a vida é breve
e que poesia a gente escreve com as horas que passam, com os dias que se vao
Canto pra entender que poesia é viver
Canto para entender que poesia é viver

Thursday, 19 November 2009

passarinho e haicai

estudo 01

a palavra dita
é passarinho voando
rasga o céu da boca

Thursday, 12 November 2009

tentando haicai de natureza minha

dentro do meu peito
trago essa flecha veloz
nela, minha voz

renato frazao aparafusou minha métrica. mas ainda nao aprendi direito. alguém me diz como eu divido a passagem ai de cima em silabas poeticas? pra ser um haicai tem que seguir 5/7/5...

Friday, 25 September 2009

aprendi hoje

no fundo do poço tem água limpa.

Monday, 14 September 2009

medidas

tinha uma perna curta, a outra era longa. Ou tinha uma das pernas longa demais?
toda vez que comprava uma calça tinha que levar no alfaiate. Os sapatos, depois de anos de tropeções e tombos, agora levavam sempre um salto para compensar a diferença. Mesmo assim andava meio torta.

Thursday, 10 September 2009

deslocamento

são tantas várias
muitas que são nem mil palavras as descreveriam
e delas todas só sobrou uma de muitas que um dia foi
foi no galope do tempo passado ou na cauda do cometa harley
que se perderam uma das outras
andavam todas de mãos atadas, todas assim sendo muitas em uma
era Sheila, era Carla, era Beta, era Rita
era fera, era feia, era dura, era bonita
pedra, folha, ar e chão
era ela, era ela, erra ela, é ruela, zerou ela
deu zebra, coluna do meio

Tuesday, 1 September 2009

Batom gasto

Chora todo dia a coitada
Seus dias de atriz ficaram pra traz
Olhando pra ela ninguém diz
Que ela um dia foi a tal
Amada por alguns homens bons
Seu pescoço conhecia o carinho
de alguns
Suas coxas conheciam o encaixe
de alguns
Suas mãos conheciam o segredo
de alguns
Seu batom está gasto, com a pontinha do dedo mindinho
Esfrega o resto do vermelho carmim no lábio fino

Sunday, 2 August 2009

Ipê

No pé de jaca, ou na macieira
dentro de um ninho, ou fora da toca
eu passeio, eu passei ó
Ipê amarelo, árvore majestosa
amarelo ouro
amarelo- no sol, nas flores e na minha lembrança

Thursday, 23 July 2009

Mente sã

eu nasci e fui criada na zona oeste do rio de janeiro
de pequena comi muita goiaba, matei muita cobra com paulada na cabeça e vi seus rabinhos mesmo quando cortados pularem pelo chão de terra e mato crescido
tinha muito pé de tomate selvagem- sempre pequenos e verdes
galinha pintada de branco e preto adentrava o portão sem tranca
minha casa não conhecia chave, nem eu que andava por ai sem eira e nem beira, sem nada nas mãos, sem bolsa ou mochila, sem chave, sem medo
guerra de mamonas, ploc monster na birosca da esquina da segunda rua era modernidade, corrida atrás de balão, bicicleta rio a cima e em velocidade alucinante ladeira abaixo, dente e braço e queixo e cabeça quebrada, mas corpo são
corpo são

Wednesday, 15 July 2009

Monday, 29 June 2009

Zum zum zum de zumbido

E eu fico com essa vontade de chorar
É como soco no olho
ao pé do altar
soco no estômago
ao acordar
ver estrelinhas
de tanta dor
Ouvir zumbido, dentro do ouvido
depois de ganhar muito tapa
depois de levar uma surra
da vida que não faz sentido algum em mim
é roupa que fede de bolor
é rosto que se esconde de sol
é a culpa, é a culpa

em processo de feitura

Friday, 26 June 2009

Quando a palavra vira música

Ontem fui ao show do Pedro Ivo, músico talentoso, e escutei pela primeira vez palavra minha virar música de outro. Um escrevinhado meu virou música de Pedro. E tinha gente na platéia cantando junto.
Já postei a letra aqui no início do blogue, mas vale a repetição pra explicitar minha alegria em ver a bola no ar.

Ele, o homem

Já vi homem grande chorar pequeno, já vi homem feito tentar voar do parapeito
já vi homem sério se engasgar com veneno
já vi homem certo depois de um pulo dar defeito
já vi homem macho ser menos homem que uma mulher
já vi homem atleta deixar a peteca cair
já vi homem bomba fazer tic-tac e nunca explodir
já vi homem bom que por preguiça decide sempre mentir
já vi homem forte não aguentar carregar seu próprio peso
já vi tantos homens num homem só
engatados todos num grande nó
Ai que dó! Ai que dó!

Tuesday, 23 June 2009

Tevelisão

Passa na telinha

Saturday, 20 June 2009

Um lugar pra chamar de meu

Numa dessas caminhadas sem meus pés eu fui dar num lugar
um tanto distante
por lá fiz minha casa e coloquei um teto nela
A casa era torta e não tinha janelas
Mas tinha portas, muitas portas
e portinhas por todos os lados, até no chão havia porta
as portas eram todas trancadas, e eu tinha um chaveiro pesado

Monday, 1 June 2009

Ticket Barra-Gávea

Foi passageiro
muito rápido que nem trem bala
E que nem trem bala que passa ligeiro
não deu pra guardar na retina nenhum contorno, nenhuma imagem definida
Foi paisagem que passa embaçada
Foi bala que se engole inteira
Não lembro nenhum passo da sua coreografia
daquele bando de movimentos executados com perfeição
Pernas, braços, língua, mão, uma cadencia de escrita tão bonita
Fiquei apenas com uma pequena sensação- vivi aquilo tudo? Ou aquilo tudo foi em vão?

Monday, 25 May 2009

Num rio

Daquilo tudo que sinto resolvi me aquietar
Deixo cair na água
Deixo a água levar
Daquilo tudo aqui dentro resolvi me despedir
Deixo cair na água
Deixo a água lavar
Daquilo tudo que fui resolvi me desmentir
Deixo cair na água
Deixo a água arrastar
.... Venha cá pra perto e me diz umas palavras suas
Ao pé do ouvido que é pra eu melhorar....

Saturday, 9 May 2009

Forminha de papel

Enche a boca pra falar
Muita saliva, dente, língua
E não tem nada a dizer
Mas mesmo assim ela é uma fera
Tem unha na fala dessa gata
Tem farpa no olho dessa moça
Tem morto no sangue dessa mina
E mesmo assim ela é menina
Enche a boca pra cuspir
Língua em riste, saliva ácida, dente afiado
Marimbondos, borboletas, bolinhas de sabão
Essa mulher não sabe quem ela é
Mas mesmo assim ela é uma fera